Meu peito amanheceu cheio de ternura, cambaleado. No espelho o vapor dos olhos quase a se precipitar, o sorriso técnico, o suspiro, entre os passos o ruido da geladeira, o tilintar do vidro, toboágua pela garganta afora, engoli o mundo e um pássaro surgiu. E como erguer o corpo e mergulhar no infinito com apenas um impulso? Talvez o sonho seja te ter aqui.
Elisa Bartlett


Existe um véu invisível entre o homem e a morte. Quando alguém morre, este véu caí e, por alguns instantes, podemos sentir a morte de perto, nítida e forte. Com o tempo o véu volta e podemos seguir em frente.
Elisa Bartlett


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Eu queria escrever um poema belo
de doer os olhos de quem lê.
Um poema belo
como o parnasianismo
misturado com o romantismo.
Gracioso como a aurora
e brilhante como galáxias.
Rebuscado como sonetos de Shakespeare, simples como os versos de Drummond.
De uma beleza tal qual as lágrimas à luz do luar
E afrescos e abóbadas e vitrais.
Resplandecentes como safiras.
E quase tão belo quanto
O sorriso de uma criança.

Um poema tão belo, que eu, ser tão efêmero,
Não pude escrever.



Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
A dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição de qualquer semelhança
No fundo.

Fernando Pessoa 



Houve uma época em que o tempo não era suficiente
Esta tudo em mim como deveria ser
Dê para mim tudo isso que você segura
Houve um tempo em que as nuvens passavam por mim

Quando andava pelo espaço
Olhando em seus olhos, há tanta segurança
Ando pelo espaço pensando em você
E não há nada mais que se possa fazer

Mas continua em minha mente
Há um buraco me sufocando há tempos
Como se deve olhar em olhos se esses mesmo não enxergam
Deixe me mergulhar

Tenho dito deixe me mergulhar em teus braços
Memórias anseiam cada vez mais
Deixe me revelar pelo espaço
Apenas anseio em mergulhar em teus braços

Pensamentos assombram mais e mais nessa cidade
Pensamento tão fragilizados
Andando pelo espaço pretendendo mergulhar em teus braços
Navegando pelo espaço […]


Erica Andrade 


Quem sai aos seus

vozes a mais
vozes a menos
a máquina em nós
que gera provérbios
é a mesma que faz poemas,
somas com vida própria
que podem mais que podemos

Paulo Leminski



Pois as mãos nos meus olhos, com carinho.
Fecha-os num beijo dolorido e vago…
E deixa-me chorar devagarinho…
Florbela Espanca


Você, se quiser poesia, vá buscar na cozinha um tacho, fundo e outro raso, para colocar lá dentro, até adquirir um tom dourado e fazer soar o chiado, todas as palavras, as que você quiser doar, para compor o verso, o que você quiser exteriorizar. Chefe de poemas, de culinária litetatura, coloca sal lá, azeite ali, coloca aquilo que torna a vida bela no prato e coma, coma e lamba os lábios, esfregue as mãos, a poesia deliciosa desce pelo tubo até estômago, onde os ácidos não a correrão. A poesia se afunila e se acopla aos tecidos, depois passa para os capilares e, como parte viva que é, vira organismo que parasita as células tornando elas, rapidamente, mais humanas.
A.E.C Souza.


Não empreste a tua dor, toda dor tem sua beleza desvairada. Deseje por um instante de entendimento, um ligeiro ímpeto de lucidez. Guarde das pétalas o aroma doce da ilusão. Na mente, observe as cenas repetidas do amor de mãos atadas, tantas vezes encenado nos becos imundos sobre os tuneis de Paris. Das canções guarde apenas as guitarras dementes do som do the cure. E depois do último trago no cigarro, tenha certeza que o amor nunca acaba, ele apenas se dilui formando uma nova camada impermeável sobre nossos corpos cansados de tanto amar, amar e amar.
 Elisa Bartlett em “Deja vu Volage, 1976”.