Tenho pensamentos que, pudesse eu trazê-los à luz e dar-lhes vida, emprestariam nova leveza às estrelas, nova beleza ao mundo, e maior amor ao coração dos homens.
(Fernando Pessoa)


Que canto há de cantar o indefinível?
O toque sem tocar, o olhar sem ver
A alma, amor, entrelaçada dos indescritíveis.
Como te amar, sem nunca merecer?
Amar o perecível,
o nada,
o pó,
é sempre despedir-se.
Hilda Hilst 


Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você.
Friedrich Nietzsche.


Dia & Noite

O sol se deitava
Nos seus olhos
E se levantava
Dentro dos meus.

(Marcelo Oriani)



Eu não sou mais como antes. Eu mudei. O traço ficou mais rude, mais tosco e o cenário mais real, menos imaginário. Levei um choque de desesperança, mortifiquei os poros no ato da escrita, maltratei a chicotadas os sentimentos mais puros da minha estratosfera. A tinta está mais espessa, misturo nela a terra que se acumulou nos meus sapatos durante a caminhada. Rastros empilhados em pinceladas firmes e concentradas buscando a silhueta perfeita da mulher de seios errantes e face desintegrada. No fundo o horizonte do mar se desdobra indicando a rota para o infinito. Nas mãos, rosas despetaladas cobertas de sangue, um contraste catastrófico e fascinante. Os olhos vermelhos entupidos de álcool sobre a tela inquietos e desesperados choram o mundo desencantado e dilacerado. As pupilas estéreis dilatam as veias do coração. E não me resta nada, o que restou se explodiu, se foi, fui derrotada pela dor que se calou por um segundo. A respiração para e o pensamento esvaece. Mergulho na minha própria obra, dou um giro na tentativa de sumir. Depois de tempos fico sabendo que encontraram a minha alma presa naquela tela recostada na parede daquele quarto. Até hoje não sei se morri ou renasci. Eu só sei que eu não voltei mais ali.
Elisa Bartlett.


Poético

De manhã escureço

De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
– Meu tempo é quando.

Vinicius de Moraes



Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Fernando Pessoa



Eu fui poeta na impossibilidade absoluta de conformar-me.
Roberto Piva


Há algo que eu necessito tanto quanto a vida
algo que me aparece e que depois some.
Algo que a vida como um todo necessita
porque traz um sorriso que não tem nome.
.
Eu necessito do palco e do microfone
para dizer do que a vida necessita.
Mas digo a mim, segredo, tenho a fome
dos que amam mais que tudo nessa vida.
.
Tenho a ferida dos românticos burgueses
e o Atlântico dos nobres portugueses
Eu apenas necessito do teu ar!
.
Como quem necessita, na madrugada insone
do calor do teu corpo e do teu nome
Que nasce, que ama. E que some.
Heitor Henrique in Um poema.