No se puede callar cuando se siente.
Fiodor Dostoievski  


No silêncio do meu peito sopra um vento.
Elisa Bartlett    


Um texto curto sobre um poeta culto. Acordava todo dia às quinze para as cinco. Dormia, por vezes, sobre os livros. Cantava cantigas de ninar para si mesmo, sussurrava da boca central até o pé ouvido direito, ouvindo-se, por detrás da nuca, ecos insonoros da orelha da extrema esquerda. Todo poeta que acorda retira do travesseiro restos de sonho, assim ele compõe certezas literárias absolutas, absolutistas, dogmas sonoros vindos do mundo além-terra-mar-ar, coisas que, na certa, sóbrio, animado, não conceberia nem no mais caudaloso dia. Os tóxicos da mente embriam as comodidades da vida moderna. Seja com ou sem vodka, cachaçado ou não, sujo de vermes da cervada, o poeta se enculta. Inteligível é seu mundo e ultrassensível sua obra uníssona e meridional. O poeta culto dormia e acordada na mesma medida de sua inconsciência febril, precisa e estimada.
A.E.C Souza 


Todo poeta tem sua própria loucura como confidente.
Elisa Bartlett  


Minhas escolhas determinaram o rumo de nossas vidas para sempre. Os sapatos deixaram de ser pares, passei a ocupar apenas um lugar à mesa. Acontece que eu nunca fui uma pessoa psicologicamente preparada para irreparáveis perdas. Eu perdi muito perdendo você, eu me perdi. O fator colossal que minhas escolhas incidem é tremendo. Eu escolhi ser só, não seu. Se me arrependo? Mas claro, sou humano. Tenho a capacidade de inverter os fatos e achar que o mal pode ser sim o bom. Não é apenas questão de coragem? Perdi a vontade que exercia sobre todos durante esses anos. A saudade é um dano insuprível. Esse buraco preto não quer fechar. Sou eu o culpado de ter cavado a minha própria cova, cansei de escavar, pensando que eu poderia ressuscitar esse amor das cinzas, do breu. Agora, o sol doira a minha pele como noutros tempos passados com você. Minha pele já não queima. Meus lábios já são secos. Minhas mãos descuidadas, meu cabelo desgrenhado. Se eu soubesse que minhas escolhas devido a um ato tão pueril daria nisso, jamais eu rodaria aquela maçaneta branca. Abri e nunca mais nos vimos. É doloroso falar sobre um amor que sumiu… é tenso pensar que o que eu escrevo pode ser uma bomba-relógio. É reconfortante cuspir estas palavras. Minhas escolhas não foram as melhores, mas o destino sabe o que faz e eu confio nele. Vivo com a saudade, mas não morro por ela. Vivo sem ti e até que me saio bem, aprendi a lidar com a perda que não foi da morte física, mas sim de um amor puro, ingénuo que acabou sendo manchado por escolhas erradas vindas de mim e de você. A culpa de você ter ido embora foi minha, mas a dor lamentável de ter me esquecido, sempre foi e sempre será sua.
Túlio Santos | Escolhas. 


Sufixa novas vogais atribuídas as megeras consoantes, beira as mesmices o gosto amargo que sobrara do opaco âmago. Soberano, tirania que lhe deva comoção, transparece no âmbito estomacal, que há membranas, dejetos delas, há cadáveres membranosos, defecando em meu fígado, já gastos, unem compotas desnudas, de pele degenerada e unhas amareladas, é o enjoo prepotente dos elementos fundidos, expelindo novos eus.
Prepotência


Tem certeza que é tristeza?
Talvez seja apenas um silêncio, uma pausa.



E dá eu para servir-te de moradia? Dá eu para ser e vir?

se só sou
e só vou
e só voo
só sou voo
e só sei ir só
não servir-te-ei
e se servir
estendo a mão em desculpas
estendo os olhos
estendo e vou
estendo e voo
que eu só voo
voo-te-ei

Anthonieta: desvairada, agoniada, urgente.



minha língua

   dos clássicos
eu tenho o máximo

   o último broto de vida
da primeira pedra do lácio

Liossi