O que escrevo no muro
É leve feito sussurro
O que na folha é rasura
Também esmurra



Meu universo não está nos jornais

Isto não é o meu universo. Não estas flores, estes abraços, estas cenas de sexo selvagem. Meu universo está lá fora. Além das janelas.

Isto não é o meu universo, porque aqui não tem ventilação. Porque aqui tem um jogo de ideias desconexas e porque não me sinto bem neste lugar. Você já deve ter sido convidado a um lugar onde não tenha se sentido bem. Não se sentia bem porque ali não era o teu universo, suponho. Quanto a mim, estou aqui. Já que estou, continuo. Não fui convidado, confesso. Entrei porque a porta estava aberta. Fui intruso.

No início gostei. Li certa vez que ‘como toda decepção, aquela havia começado como uma ligeira alegria’ ou coisa parecida num livro do Zusac. Hoje eu digo que aquilo não é o meu universo. Isto não é o meu universo. Vocês não são o meu universo.

Li o jornal. Um boeing caiu na Ucrânia. Fiquei triste. O jornal não é o meu universo. Não tomei vodca na tarde de hoje, não transei com nenhuma prostituta ladra e não criei um poema que falasse sobre o amor. Ah, o amor.

Ouvi dizer que o amor é o meu universo. E que tenho coração de poeta, o que discordo completamente porque tenho aversão à palavra Poeta. Não creio que existam poetas vivos. Com exceção da Patrícia e dos seus familiares – Patrícia Poeta.

O amor é o meu universo. O vento lá fora, as mulheres de vestido caladas, o sol queimando a carne. Lá está o meu universo. A poesia caminha lenta, amável, enquanto lentamente caminha. E eu durmo. Enojo-me. Depois sorrio quando me deito em teus braços, mulher. Teus braços são o meu universo, porque são vivos, porque são palpáveis e porque eu te amo.

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Heitor Henrique



Não se alcança o coração de alguém com pressa.
Luis Fernando Veríssimo


As vezes não há nada o que dizer, apenas o que chorar.
Elisa Bartlett


liberdade (a primavera onde as pessoas dançam)

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Haveria perdão para Deus por nos fazer livres a ponto de não nos impedir viver o ódio e a estupidez ?

As águas da Fonte da Bica parecem que não apagam mais a velhice enquanto, no mercado, o verde sobre a banca amadurece em ouro grauçá. Não teremos mais, João, teus passos no Forte de São Lourenço a apontar os canhões dormentes para a Ilha do Medo. E quanta insônia ainda sobre as cidades… Não há gazes para a Faixa de Gaza onde o azul piscina nos quintais dos colonos não lava a calçada de sangue.

Do monte Moriá, Abraão vê os meninos de Isaac lançando mísseis sobre as crianças de Ismael, todos seus filhos segundo o mesmo livro pelo qual justificam as guerras. 
Da janela, um desconhecido fura o sinal do logradouro em que acordo e abre um buraco na perna esquerda de Carmelita sem sequer pedir desculpas pelo o aço e titânio dos fios e parafusos.

As escavações de Kani Shaie apresentaram uma tabuinha do IV milênio a.C. para registro numérico, mas como dizer aos economistas, André, que os números continuarão enterrados? Dentro dos olhos, os objetos desenham palavras. Como escreveste ”amamos o que há para amar quando estamos perto 
um corpo 
depois à distância 
a história”

E ainda faltam nomes e lenitivo para algumas dores: a mãe quando parte, o pai que não volta, o filho que desaba do voo mais alto…
Há pedaços de mundo que não são mastigáveis e não há gengibre e sal sobre a carne exposta, ferida e sozinha, que expurguem o amargo, porém o que se diz da sobremesa poderá ser consumido.

Haverá perdão para os homens por terem sido amados.

Ehre



Meu tumblr de fotos I LADRILHO »

oxigenio-dapalavra:

olharei todos os que seguirem lá.  




Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna… ou melhor, não me pergunto, contesto. A resposta eu sei de cor, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos “bom dia”, quase que sussurrados. Sobra covardia e falta coragem até pra ser feliz. A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai. Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são. Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza. O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si.
Fernando Pessoa