O que acontece é que eu te entendo demais.
E como a ignorância muitas vezes é benção,
A sabedoria é um fardo, o qual não aprendi a suportar.



cangalho → Confissão: admiro a Lis porque ela tem uma pá de gente que gosta dela e mesmo assim ela é humilde, trata todos como rei/rainha. Falo memo kkkkk

ai amor, eu fico toda feliz, algo vindo assim de ti pra mim é mais que um presente, e saiba que é reciproco 



A solidão é a sorte de todos os espíritos excepcionais.
Arthur Schopenhauer  


Eu gastei tanta coisa quando o assunto foi amor, me tornei flor arrancada pelo caule, esta qual nunca mais brota, não vinga nem revive para tornar a respirar o carbono dos outros, revidando com oxigênio que a traqueia faz questão de abafar, que os pulmões fazem de tudo por tragar, feito aquele cigarro que eu comecei a fumar quando eu tinha meus quinze para dezesseis anos, primeiro amor, ou desamor se fixa mais ao dialeto. Eu amei por completo, direto e reto, sem virgulas que cheguei a perder o ar quando a leitura me fez engasgar, quando foi amor eu aprendi a rir, mesmo com uma bofetada, a descansar sem nem ao menos pregar os olhos, ganhei olheiras, e rugas, perdi meus anos, darling, e tudo que eu quis foi um olhar, uma palavra, eu fui amor, e fui tanto que deixei de ser quando teus olhos resolveram percorrer outro corpo.
Secretária da Morte  


Gosto mais de viajar por palavras do que de trem.
Manoel de Barros


eu tenho lacunas tão grandes

que sinto que não consigo abraçar a mim mesma

então me desfaço

entre nebulosas perdidas no espaço infinito

do caos

e do cosmos.



Cálices em tons de rosa

no subsolo da praça da estação transita todo tipo de gente
artistas, trabalhadores, heróis, estudantes, donas de casa, mendigos
todos passam seguindo seus destinos, suas preces, suas vidas
quase todos vão em busca de alguma felicidade
outros vão ligados a seus pequenos propósitos e metas diárias. 

o tempo escorre na rotina da metrópole 
os dias se atropelam na velocidade contemporânea
e ninguém percebe a grande monotonia

na esquina da saída lateral do metrô
dois jovens bêbados brindam o último gole do dia
sobre a mesa a garrafa vazia de um vinho barato
no rótulo um bela mulher de biquine sorri
no balão está escrito: C’EST LA VIE!

Elisa Bartlett



pela barra de seu vestido floral, vejo você

na cerne da palavra estou são
na hora da bravata estou puto
no dia de gravata, chinelo
no dia de labuta, escudo

cheiro de bolo que vem da cozinha
deixa o aroma pela casa inteira
te espero com sono e vontade
aranha no canto do quarto
canto do quarto, essa teia

no nome da noite sou nulo
no cego momento, visão
dia de praia, sou terno
ternura demais: solidão

louça do almoço lavada
ócio de tarde, fiz nada
tarde demais, coração
agora nada deu tempo
tempo de flor e canção



Chorei, chorei, até ficar com dó de mim.
Chico Buarque.


No transcorrer dos séculos, o ingênuo amor-próprio dos homens teve de submeter-se a dois grandes golpes desferidos pela ciência. O primeiro foi quando souberam que a nossa Terra não era o centro do universo, mas o diminuto fragmento de um sistema cósmico de uma vastidão que mal se pode imaginar. Isto estabelece conexão, em nossas mentes, com o nome de Copérnico, embora algo semelhante já tivesse sido afirmado pela ciência de Alexandria. O segundo golpe foi dado quando a investigação biológica destruiu o lugar supostamente privilegiado do homem na criação, e provou sua descendência do reino animal e sua inextirpável natureza animal. Esta nova avaliação foi realizada em nossos dias, por Darwin, Wallace e seus predecessores, embora não sem a mais violenta oposição contemporânea. Mas a megalomania humana terá sofrido seu terceiro golpe, o mais violento, a partir da pesquisa psicológica da época atual, que procura provar ao ego que ele não é senhor nem mesmo em sua própria casa, devendo, porém, contentar-se com escassas informações acerca do que acontece inconscientemente em sua mente.
FREUD, Sigmund | O Inconsciente. 


Em uma só bocada, eu engulo a noite inteira e todo universo que se estende pra além dela. Sinto todas as suas estrelas brilharem imensamente em meu estômago repleto de borboletas. E os morcegos, corujas e pássaros noturnos fazem ninho no meu coração cheio de ramos secos. A escuridão me preenche, desde os fios do cabelo até os dedões do pé e meus olhos são a madrugada que desponta seca no horizonte dos peitos sem amores. O vão que separava minhas mãos do sol se desfaz e eu disparo em direção ao amanhecer. O tiro se perde na infinitude do mundo e eu volto a ser só, a ser pó, a ser nada além de um pedaço ínfimo de glorioso nada.
cedo:  


Há algo agradável nas tempestades que interrompem a rotina. A neve ou a chuva gélida nos liberam subitamente das expectativas, das exigências de resultados e da tirania dos compromissos e dos horários. Ao contrário da doença, esta é uma experiência mais coletiva do que individual. Quase podemos ouvir um suspiro de alívio erguer-se em uníssono na cidade próxima e no campo, onde a natureza interveio para dar uma folga aos exaustos seres humanos. Todos os afetados pela tempestade são unidos por uma desculpa mútua. De súbito e inesperadamente o coração fica um pouco mais leve. Não serão necessárias desculpas por não comparecer a algum compromisso. Todos entendem e compartilham a mesma justificativa, e a retirada súbita de qualquer pressão alegra a alma. É claro que as tempestades também interrompem negócios, e, embora umas poucas empresas tenham um ganho extra, outras perdem dinheiro – o que significa que existem os que não sentem júbilo quando tudo fecha temporariamente. Mas é impossível culpar alguém pela perda de produção ou por não conseguir chegar ao escritório. Mesmo que a situação só dure um ou dois dias, de algum modo cada pessoa se sente dona do seu mundo simplesmente porque aquelas gotinhas de água congelam ao bater no chão. Até as atividades comuns se tornam extraordinárias. Ações rotineiras se transformam em aventuras e freqüentemente são vivenciadas com maior clareza.
A Cabana.